quarta-feira, outubro 8

A casa onde se guardam histórias


A escolha da biblioteca municipal Dollor Barreira para o lançamento do meu livro - o mais feliz dos silêncios - foi um ato do destino iniciado há décadas atrás.

Nos idos dos anos 60, minha família morava na av. dom manuel. De lá mudaram-se para o bairro benfica, mais precisamente para o casarão 2572, da avenida da universidade, a agora, biblioteca municipal Dollor Barreira.

Lá minha avó, dona Neguinha, abrigou a numerosa família: marido, filhos, netos e netas, empregados e, ainda, abriu as portas para 5 moças morarem. Logo começou um pensionato para ladys.

Segundo consta, das histórias que ouvi, as hóspedes eram as irmãs Odivalda, Odilma e Minervina - que gostava de ser chamada de Minerva. As 3 eram moças do interior, trabalhando e estudando na capital. Morava, ainda, Elda, professora da UFC, óbvio pela proximidade com a instituição. A casa abrigava, ainda, uma viúva, d. Ilza rolim, que era mui amiga de minha avó, morando com ela até morrer, já em outra casa.

Os empregados eram três, d. Neném, que cozinhava, d. Iracema, que cuidava da limpeza e joão, pelo que ouvi, fazia o melhor mingau para a minha irmã, além de desfilar como rainha, pelo maracatu de fortaleza, todos os anos.

São muitas as histórias que todos me contaram sobre essas personagens, nessa casa em que nunca morei, mas que virou meu lar guardado, sempre e, mais ainda, quando virou a biblioteca da cidade. Não é mesmo um engodo do destino?

Algumas histórias são memoráveis mesmo para quem nunca as viveu. Como a história da feijoada aos sábados, doada por cima do muro, pelo cozinheiro do restaurante universitário – que já operava a pleno vapor na época – á sua amada, d. neném, cozinheira de nosso pensionato. Feijoada, essa que era dividida para todos. Minha mãe particularmente adora contar essa história, como quem lembra o gosto da feijoada e o gosto dos sábados.

Assim como os natais, que segundo ela, eram incríveis e na área da entrada da casa e, óbvio, reunia a todos, família ou não. E era essa a característica dessa casa-pensão, a mesa era única para todos, onde comiam juntos e deviam partilhar suas histórias de anos 60/70.

Outra história que acho divina é a em que joão, a rainha do maracatu e ajudante de minha avó, em certo dia de desfile do corso, havia ido buscar sua peruca em um salão de beleza. No caminho de volta, segurando majestoso sua cabeleira postiça - quase como se segura a boneca calunga – se rompeu em susto ao vê-la indo embora, roubada por um rapaz em uma bicicleta. Teve sua peruca substituída por outra, emprestada por minha mãe, mas de certo não era a mesma coisa.

Posso contar outras tantas histórias que ouvi sobre essa casa e seus moradores, minha família.

Essa casa, que sempre foi minha e nunca foi, virou magicamente uma biblioteca enquanto nós vivíamos, enquanto eu escrevia minha outras histórias e, esses dias abrigará um encontro ao passado, quando meus entes - que lá já moraram – para lá retornarem, ao lançamento do meu livro.

Nem que seja por algumas horas, mas a memória do passado e do presente estarão vivíssimas naquela casa onde se guardam histórias. Escritas ou não.




o lançamento do livro ocorrerá dia 09 de outubro, ás 18h30, na biblioteca municipal dollor barreira, na av. da universidade, 2572, benfica. fortaleza-

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