segunda-feira, outubro 1

Colher

Nunca acostumou-se com a cara borrada no espelho. Fosse qual fosse o espelho, ali se apresentava aquela imagem de vulto.
Era pra nunca esquecer, era pra nunca tornar-se a memória, aquele borrão. Era preciso ser aquela mancha porque de outra forma tomaria forma uma cara limpa, sem marcas, sem explicações, livre, coisa que por dentro não sentia.

Ainda que sozinho, ainda que com a cabeça sobre o braço naquele momento do dia que nada tem significado - é só um tempo entre um acontecimento e outro -  ainda assim há que se lembrar que a imagem no espelho é um borrão.

Um borrão como todo o resto que continuou existindo sem a sua presença.

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