quarta-feira, janeiro 4

São Paulo e onça.

Eu lembro das ruas de São Paulo e seus prédios opressores. Sua arquitetura alta, sua meta cinza. Lembro do gosto do suco de laranja da São João com a Ipiranga. Nada de samba, nada de amigos. Algumas poucas cervejas geladas e o dia ainda frio. A mesa na calçada, quase como na minha cidade, mas essa cidade é outra como eu sou outra agora. Por isso mesmo, agora, lembre de outros lugares, outros cheiros, outras cores. Essa dimensão que é a viajar. Sair do olhar natural, do estado natural das coisas. Sair agora de mim foi a melhor coisa que poderia ter feito. Sair para sentir-me outra, fugir mesmo. Do tempo, dos sonhos, da treliça do passado. Me nego a pensar que o ano novo me tenha feito repensar. Não tenho repensado, tenho agido. Tenho, de punho forte, criado as horas sobre mim. Sem espera, sem escapadelas ao relógio, de vara curta cutucando a onça, essa onça que sou eu.

Como de São Paulo cheguei à onça, não sei. Foram os bandeirantes, penso. Mas meus antepassados eram portugueses sisudos e de bigode. Ainda prefiro a onça: fêmea, com fome e disposta. A que corre léguas por que sabe do caminho, a que corre léguas por que sabe o que encontrar, a que corre léguas por que quando chega sabe o que fazer. Por isso, me sei onça. Ainda o cheiro de carne, ainda o sangue, ainda as vísceras. Toco em mim e sei que ainda estão lá. Apesar da caça, da predação, da quase morte. Ainda aqui, a onça e seus dentes. Suas mamas e saliva. Sua boca, seus músculos e sexo.

A onça sem juba, só sobrevida e existência. Sem dor aos demais, no ato que lhe faz onça. Aquela que corre as matas, aquela que cruza com os escolhidos, aquela que se faz forte para, à noite, desabar em galhos de árvores altas na ofegância do dia novo, aquela que nos dias quentes refresca-se à sombra do que tiver. Aquela que de tão onça se sabe livre.






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