segunda-feira, janeiro 30

Jaguaribe, beira de rio.

A primeira vez que pisei o chão do rio, aquele a quem chamam Jaguaribe, senti um cheiro que me acompanha até hoje. 
Áquela época, o corpo banhava-se com sabão importado, cheiro bom, de verde e lavanda. Os rios tem hoje esse cheiro que me alimenta a alma. Hoje visito muitos rios. Sempre que piso qualquer chão de rio, sinto esse cheiro verde e lavanda. Mas nunca, nunca tão forte quanto o daquele a quem chamam Jaguaribe.
Naquele rio, verde e lavanda, a sua cabeça fazia sombra pra leitura do meu livro. O sol ofuscava a vista mirando as folhas brancas, eu mal lia as frases, cega de palavras. Henry Miller disputava com o marulho do rio. Sim, rio tem marulho e eu me maravilho com a grandeza daquele a quem chamam Jaguaribe.
Eu alimentava os peixes á beira do rio com baião de dois, assim, na boca. Você, perdido no tempo, olhar gigante sobre a margem daquele a quem chamam Jaguaribe. Vez ou outra lembrava dos peixes e do baião de dois. Ria-se com a cena: alimentar os peixes á beira do rio com baião de dois. Os peixes também, olhar gigante sobre o chão do rio, vez ou outra, lembravam de nadar. Você me explicando o rosa nas pedras do rio: a maré que enche, vaza e seres estranhos que fazem da rocha o nascedouro. "Isso a gente come. Quer dizer a gente, na verdade, bebe, mas usa esses para tira gosto". Rimos.

A água do rio transparente como nossas almas.
E cruzamos o rio, ponta a ponta, ouvindo as conversas distantes dos senhores e pisando o chão do rio, dia claro, água límpida, pedras-nascedouros. Palavras lidas por horas do livro, á sombra de sua cabeça.
Líamos e era bom. Ler para bem querer. É dos prazeres mínimos que tenho saudade. Ler pra quem se ama.

Palavra dita ao vento é bumerangue que bate no ouvido e volta no coração.
 

Um comentário:

Anônimo disse...

Ler para quem se ama, realmente muito. São os pequenos prazeres que nunca saem de nossa memória...