terça-feira, janeiro 17

Corpo e carvão

Uma dor me invade a cabeça como se cabeça tivesse.

Hoje fui picada por um zangão. Quando o tirei do meu braço, seu ferrão ainda se contorcia dentro da minha carne, entre sangue e um elevado na pele. Doeu como dói minha cabeça agora. Doeu como dói todo o resto. 

No ato da dor, no rompante da carne cortada, matei o zangão, como se pudesse devolver-lhe alguma dor.

Dor não é algo que se devolve.

Matei o zangão por desespero e ato impensado, por dor e vingança da dor. E lá estava o zangão sem o ferrão, agora morto, parecendo indefeso. Parecendo.

Ainda penso que a dor na cabeça é pela morte do zangão e não do ferrão na pele.
Mas me sobra, entre a lembrança do bicho colorido e o corte na pele, um sabor de não pertença.


Essa dor não é minha.

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