quarta-feira, novembro 2

Agora visto seu pijama e sua pele habita em mim




Agora visto seu pijama e sua pele habita em mim e
me arrasto entre as horas como se relógios fossem obsoletos.

Meus dias não se guiam em horas, mas no uso que da casa faço.

Como no banheiro, durmo na sala, escrevo na cozinha
mantenho as compras no jardim e banho-me no corredor
subverto com precisão a ordem do lar

As horas não me dizem se é noite ou dia:

eu anoiteço por mim mesma quando cerro os olhos
eu amanheço por mim mesma quando dói



Desmaio por tardes inteiras, remontando histórias mal contadas
fazendo delas um fiado meu, com meu fôlego de peixe:
prendo a respiração e o mar me abraça
fundo, abissal quase como aquele beijo embaixo da chuva

Repito minhas preces incessante vezes para que as divindades
não se confundam como eu me confundi
para que as palavras, fixas no céu do quarto, caiam diante de ti
quando da sua presença em minha cama
estrelas-palavras-meninas-imberbes para o desfrute desse gosto que é seu

Visto seu pijama e sua pele habita em mim
e me assombro com a pergunta:



O que, quando nos momentos de silêncio
o que, quando deitado no travesseiro, no escuro da noite a dentro
o que, quando no suspiro último antes do sonho
é enleio, é idílio e sou eu na sua memória
o que, quando a sua carne reflete o que tem dentro da ostra
o que é real e se conhece pelo cheiro



Porque suas mãos suam, seus olhos vidrificam
e sei que de lá não sai palavra que me explique
resposta que me seja dada
para o que meu coração quer saber



E meu coração é cavalo torto
que de rédeas não tem conhecimento

Meu coração é cavalo torto
que não aprendeu a dividir



Mas ainda assim



Vem porque mesmo o cavalo mais torto
busca direção para não caber no precipício

Vem porque mesmo o cavalo mais torto
sabe que para tanto precisa de montaria



Vem porque há tempos descobri que
cavalgo melhor com teu enlace e dureza

Vem porque mesmo o cavalo mais torto
é capaz de ter no peito um coração de criança.



Nenhum comentário: