O dia nasceu sem promessa de muito.
Talvez porque a noite dormida tenha sido assim, dormida. Mas admirando, da varanda, o céu largo como uma boca matinal, ela se encheu de fôlego e prosseguiu dia afora.
O dia continuava sem promessa de muito, e ela mal ouvia o balbucio dos outros: o ouvido ao longe, como que debaixo d'água. Ela não se importou tanto com o dia sem promessas.
Sem promessas é mais fácil, mais cômodo e indolor.
Não se espera, à meia-noite, que o travesseiro fique mais confortável e se possa, finalmente, descansar, a cabeça e os pensamentos, e dormir. Afinal, amanhã é, quase sempre, um dia que nasce sem promessa de muito.
O dia se arrastou colado aos ponteiros, como um marca-passo colado ao peito.
Só a noitinha, quando o sol se vai junto com o dia sem promessas, é que as coisas se ajeitam. Ou tentam.
Ela se sentou no carro, como quem se deita nos próprios braços, suspirou fundo o cheiro de petróleo dos tapetes novos e deu a partida. Nada. O carro simplesmente não pegou. Tudo apagado. - Roubaram algum fio - ela pensou - como quem entende de carros.
Fez as eventuais ligações de disque um e disque dois e nome, cpf, um minuto, por favor e pronto. Até 40 minutos o motoqueiro chega. Pronto.
Esperar assim, com o carro quebrado, num estacionamento a esmo, pode virar a promessa do dia. Pegou de uma revista, olhou as horas, contou os ônibus que barulhavam à distância, voltou à revista, mais pra fingir que pra ler, cantou algo de cabeça de desde cedo e pronto.
O motoqueiro chegou na bronca:
– ... que eu num ia achar nunca esse lugar escuro e você aí, escondida – falou ralhando junto com a moto. Ela gemeu algo de:
- mas eu avisei pra moça.
Ele tirou da traseira da moto apetrechos, papéis e os cigarros. Conversou algo sobre o dia.
- É bateria, ele disse, como quem entende de carros. - vou dar uma carga, mas não sei se funciona, não. Agora tem um amigo aí que trabalha com isso e ele facilita, se você quiser.
- Se isso me tirar daqui, eu quero. Falou decidida.
Pronto. Quarenta minutos a mais de seu dia promissor e a bateria chegou nas asas de outro motoqueiro. Mais 10 minutos de relógio, de todos no mundo que não pararam sua noite por falta de bateria, e a coisa estava resolvida.
O dia não se comprometeu com nada, o dia inteiro. Mas a noite, ela sabia, sempre tem promessas, mesmo as que não se cumprem, mesmo as que não são ditas, as que surgem ali no momento, nas quais se tropeça e não se pede desculpas porque se põe nos braços e leva pra casa, as quais ela, convive num quase-nunca-consigo-dizer-não. Principalmente quando a noite tem olhos bolas de gude.
Num entremeio do dia e a noite, ela sentiu ter vivido alguns dias.
Mas a noite continuou sem promessas como começara o dia.
Pegou o que sobrara de si e calou-se:toma o que te aconteceu hoje e transforma em algumas linhas para que a noite de outros se enervem em desassossegos tantos que te toquem, com dedos distantes, os acontecimentos alheios.
Dormiu sentida de si. Como que provando do próprio sugo.
Deu-se por entendida: essa era a promessa do dia.
Terça-feira, Junho 16
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4 comentários:
E de promessa em promessa os dias vão parafraseando o estranho.
E tome texto bão teu... bem redundante.
P.S.: ela = moça = aquela coisa estranha que dá naqueles horários.
É nem todos os dias são de sol. Às vezes surgem os nublados e deixam nossas vidas sombrias.
Ufa! Quem não vive um dia desses levante o dedo! A noite, um alívio. Às vezes penso q de tão leve e acalantadora, as noites me deixam tão excitado q prefiro m cansar a descansar, só para poder sentir seus resquícios no dia outro! Uma nostalgia, um riso q os outros ficam sem entender!!!
num dia sem promessas,
a escrita, orgiástica, é a fresta.
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