segunda-feira, setembro 25

O amante

- Você é meu amante! Você tem que me comer! É pra isso que servem os amantes. O que é? Isso virou um casamento? É isso? A gente sai pra jantar, tomar um chopp e você não fala nada. Eu chego, você não nota. Eu corto o cabelo, você não comenta. Só falta a televisão com um jogão daqueles, aqui nesse quarto de motel que você arranjou. Nem em motel decente você me leva mais. Vamo levanta dessa cadeira. Levanta! É pra isso que serve ter amante: Pra levantar. Pra levantar o cacete, pra levantar meu moral, pra levantar dinheiro do meu marido.
O que? Você está indisposto? Meu bem, de onde você vem não te avisaram que amante não fica indisposto, nem gordo e nem faz greve? Ah, não? Pois estou te avisando. Vamo. De pau duro agora, que não tenho muito tempo. Tenho um trabalho para entregar na faculdade ainda hoje. Sabe que eu entrei para faculdade? Imagina eu... nessa idade? Mas eu pensei, se eu já tenho um amante porque não entrar na faculdade? Acho que tem tudo a ver: amante, faculdade. Não quero parecer ultrapassada.
Vamo. Tá demorando muito. Quer uma ajuda? Uma chupadinha, quer que eu dê uma pegada e tal? Quer? Não precisa ficar assim. Não, não estou pressionando, benzinho, mas veja bem. Quem paga aquele apartamento lindo e grande pra você? Quem compra suas roupas caras enquanto você se exibe pras gatinhas de bundinha ainda pra cima, mas que um dia ainda vai cair? Quem? A titia aqui. A titia não pede nada, só que você fique de pau duro pra ela. Só isso.
Vamo benzinho. Cresce pra titia, vamo. O que? não posso conversar com seu cacete? Porque não? A gente se conhece bem, somos íntimos. Ele me entende, ele até me conhece por dentro.
Tá bom não é hora de piadas, você tá certo. Mas e agora o que é que faço? Não posso sair assim e ir atrás de outro amante agora. Tem que ser você mesmo. Sabe aquela expressão, se só tem tu, vai tu mesmo. Tá bom. Vou parar com as piadas. Mas você não me deixa muita opção, não acha? Já que você não vai me fazer gozar eu vou pelo menos gozar de você. Tá, já parei.
Você realmente está sensível hoje. Nunca vi disso. Amante sentimental. Ainda bem que você não tá apaixonado por mim. O que? Era isso que você queria me dizer? Você? Apaixonado? E por mim? Essa é boa. Amante apaixonado! Meu bem, eu já casei. E casar você só casa apaixonado. Já passou, é verdade. Mas na minha idade eu não arranjo mais marido, de modos que fico com este mesmo que já tenho. Na minha idade se arranja amante. A-man-te. Ouviu isso? Eu não quero namorado, eu não quero marido. Eu quero AMANTE. Por isso trate de se desapaixonar e ficar de cacete pra cima. Não funciona assim? E como funciona? Já pedi pra você me dizer o que faço. Coloco um filme pornô? Pego um óleo com sabor amora? Tomar um banho juntos? Você gosta tanto dos nossos banhos! Benzinho, vamos resolver isso logo. O tempo está passando, tenho que sair e ninguém me comeu. Vou chegar em casa, aborrecida, meu marido vai perguntar o que houve, me dizer que hoje estou um porre e o que eu digo a ele: - ah, é culpa do meu amante que não me comeu! Não se preocupe. Se duvidar, ele até concorda comigo, que isso é um absurdo, um amante de pau mole. Isso chega a ser uma contradição. Amante e pau mole na mesma frase.
Enfim, querido, preciso ir realmente. Fique aqui sozinho no seu motelzinho de segunda pra pensar bem muito no que você quer fazer comigo, da próxima vez que a gente se encontrar. Quero bastante safadeza que é pra tirar o atraso. Por hoje me resolvo no banheiro com uns brinquedinhos que ganhei das amigas que ainda estão vivas, se é que você me entende. Não entendeu? Elas estão vivas porque também tem amantes e não só maridinhos encardidos. Se bem que os amantes delas devem comê-las. O que não é meu caso. Não, não estou cochichando.
Não esqueça do meu pedido, tá? Já esqueceu? Safadeza, benzinho. Safadeza. Tchau.

- alô. É da casa de acompanhantes do Mister Perfeito? Eu queria contratar um acompanhante. Sem tempo determinado, mas com urgência. Pra hoje, o sr. tem? É, estou com certa urgência. Ele tem boas referências? Huuum, com a aquela atriz? Tá bom, então. O numero do meu cadastro é...

Meu homem me come com a língua.

meu homem me come com a língua.
de todas as formas que ele o faz a que prefiro é essa.
ele fala pouco comigo. ele me diz pouco. ele me diz quase nada.
chega, senta no sofá, à mesma hora cotidiana, suspira de leve
o cansaço do dia, mastiga lento a sobra do almoço que
pra ele é janta, engole o líquido que lhe der, me olha de frente e através,
afrouxa a roupa amarelecida, se esgueira pelos corredores da casa:
quarto-banheiro-quintal-quarto.
me espera na cama, tv ligada, ventilador ligado, luz acesa, janelas abertas, guarda-roupa fechado e a boca ainda.
lavo e guardo a louça pela terceira vez hoje, e amanhã mais outras tantas.
enxugo as mãos no vestido velho e descolorido como as paredes da casa.
cheiro à detergente barato, os cabelos à sabão de coco e o corpo ao suado do dia.
mesmo assim me encosto no meu homem e dele sinto o sugo que é nosso.
dele obtenho o que mais espero do dia: que meu homem me coma com a língua. e ele me come com a língua.
ele pensa que espero dele o membro formoso e ereto, a pegada forte e excitante, o beijo na orelha e as mãos entre as coxas. ele nem sabe; o que mais quero é a língua.
penso que ele não sabe como ele é bom de língua, talvez por isso fale pouco.
se essa é a condição pra que meu homem continue me comendo com a língua, queira deus ele seja mudo.
meu homem me come com a língua. ele fala pouco, eu tanto menos.
meu homem me come com a língua e quando amanhece, hora do pão com café, as palavras poucas fogem, a casa é minha novamente: me deito a preguiça do dia e aguardo a hora da língua com que meu homem me come.

segunda-feira, março 13

CAIS

reúna comentários leves
emblemas felizes, sorrisos com dentes
hoje é dia de festa
e os senhores querem paz

reúna comentários leves
roupas graúdas, dias de glória
hoje é dia de festa
e as madamas querem mais

reúna comentários leves
desenhos de cores, perfume de largo
hoje é dia de festa
e as crianças sonham demais

reúna comentários leves
mãos afáveis, copos de vidro
hoje é dia de festa
e os moços querem com gás

reúna comentários leves
bocas falantes, assunto nem tanto
hoje é dia de festa
e as moças querem por trás

reúna comentários leves
que o todo está completo
gente, ontem, domingo
ninguém pretende se jogar do cais

Charley

Perdi o Charley e conheci a desilusão.
Hoje a minha barriga ronca de fome e de saudade do Charley.
Naquele dia de muita poeira o vento varreu a terra e o Charley de mim.
Ele vestia uma camisa cor de areia e era 17h30.
Quase não se via ele, indo ao longe, no fim da estrada e da cidade, de tanta poeira
que tudo era.
Hoje não sei do Charley. Ele nunca voltou. Ele nunca mandou notícia.
Me pergunto ainda onde anda o Charley.
ele me deixou com os meninos pequenos que são a cara dele. Mal consigo olhar para os
meninos e não chorar. Mal consigo olhar para os meninos.
Ás vezes eles choram o dia todo.
Olho de longe, maneio a cabeça, dou de ombros e choro também.
Nossas barrigas roncam de fome e nós choramos.
Mas só eu choro pelo Charley.

Agora que me enfeitam os girassóis

agora me visto de morta
agora que a casa é penumbra

agora caminho lento
observando os pés e o andar

antes tinha pressa
antes tinha fome
antes tinha

as manhãs cheirando teu cheiro
as tardes cheirando à elas
as noites cheirando à álcool

os dias foram tantos

parei de contar o que era dia e era noite
parei de dizer o que em mim canta teus olhos
parei de sentir o que no peito engasga de feliz
parei de cuidar do que em mim é jardim
e floresce girassol

parei de correr com o relógio
parei de correr com o carro
parei de correr com as palavras
parei de correr com os meses, ainda

agora me visto de morta
agora que a casa é penumbra

agora que me enfeitam os girassóis

domingo, janeiro 8

Quem já foi kobaya que escarre no chão

Eu já fui kobaya há muito tempo atrás e alguns anos depois novamente.
Pode não ser bom, no entanto no cerrar dos dentes aprendemos a não morder a língua.
A língua mordida incha, dificulta o grito, deixa o gosto de sangue. Depois de um tempo você acostuma, mas descobre-se depois que é perigoso gostar do sabor doce do sangue.

Quem  já foi kobaya que escarre no chão.

Por que a cidade é ferozmente um tesouro escondido.
Quando reluz nunca é ouro, é frequentemente ilusão.

Já caminhou na cidade a noite onde ninguém mais caminha?
Já sentiu o odor que outros não ousam sentir?
Já encontrou lá esse tesouro que ferozmente se esconde?

A cidade é frequentemente feroz e terrível ilusão.

Quem nunca foi kobaya que levante a mão.

Grande e pesaroso saber que o que se carrega consigo de nada serve quando a cidade resolve te engolir. A cidade canibal  feita de gente e pouca sorte.
Essa cidade feliz travessia, travestida de morte.

A gente busca um sorriso, um entendimento, avista carros que boiam, o marasmo de companhia, um abraço te asfixia.

A cidade te engole, um buraco no asfalto, uma boca de lobo, um gato preto no tardar da noite.

Quem já foi kobaya que escarre no chão.



domingo, fevereiro 28

Deriva

se não importa a madrugada corrida
os dias temperados
as noites mornas
é porque ontem sobramos tontos

se me quedo assim
na cama de outro
molhada de outros tantos
a eles pertenço

se me quedo assim
fugida de outros tempos
a contemplar o que de nós virá
é porque sem direção
fico à deriva

mas aprendi com você que à deriva
mesmo à deriva
se chega a algum lugar

entre o sexo, úmidas

pra se despedir ele me beija forte. Enlace de carne morta.
enfia dois dedos em mim e os suga em seguida
sempre seguido de um barulho que é seu e eu reconheço.
reconheço muitas coisas desde então.
muitos reconhecem.

deslizo por sobre você
as palavras que guardei para de manhã.
segurei-as entre o sexo, úmidas
para que delas se farte quando for noite.

me anuncio entre ir e ficar
entre partir e me cortar
entre tirar o que em mim é mansidão
e o que em mim é furacão

enquanto escorrem as palavras pelas minhas coxas
ele veste a última camisa limpa
vagueia pelo quarto
admira o sol
e se vai

terça-feira, janeiro 27

Cortina tez




Era um homem como outro qualquer. Segurava uma flauta doce e um olhar perdido, via-se por detrás da janela. Era uma janela dentro da casa, mas que avistava-se da rua, do ônibus, de longe, que ele segurava uma flauta e um olhar perdido.
Nos minutos em que me detive olhando-o, ele nada fez. Não moveu os braços em direção à boca, não tirou do instrumento nenhum som, como esperei, não fitou ninguém, não piscou.
Saí de lá com a impressão de que ele buscava inspiração, respostas, silêncio, qualquer coisa que o tirasse da condição de estátua, ali enfeitando uma nesga de janela.
Quem sabe se no escondido do olhar perdido ele não toca a mais maestra das obras.

quarta-feira, novembro 12

Encontro com Escritor CUCA Barra - 12 de nov

Hoje estarei, ás 14h, na biblioteca do CUCA Barra, para o o projeto Encontro com escritor.
Falarei sobre meu livro de contos - o mais feliz do silêncios -  entre outras coisas.
Espero que a galera que lá estea curta ler e curta a nossa conversa.
Qual escola estará lá para que possamos conversar e debater esse negócio de ler e escrever?
Já eu digo.
aguardem...

E a escola é: Waldemar Barroso.

Roda de conversa SESC Educar - 23 de out: um silêncio que faz barulho

No dia 23 de outubro, em comemoração a semana nacional do livro e da biblioteca, o sesc educar me convidou para uma conversa com os jovens do ensino fundamental II.
Lá estive e em 2 turnos conversei com eles sobre ler, escrever, livros, internet, tecnologias, troca de saberes e os novos tempos.
foi tudo muito interessante e eles muito participativos.
Ao contrário do que se divulga à boca larga, os jovens nunca leram tanto, mesmo que seja em livros virtuais ou redes sociais.
Na conversa que tivemos constatamos isso.
Eles gostam de ler e saber escolher seus livros.
Na ocasião deixei um livro meu na biblioteca e antes mesmo da bibliotecária conseguir catalogá-lo ele foi alugado por uma das alunas que participou do momento da conversa.
Recebi já diversos e-mails dos alunos agradecendo minha ida e sentindo-se instigado a escrever.
Isso vale muuuuito a pena!

Meu silêncio nem é tão silencioso assim. :)

Conversa com o escritor SESC

Dia 30 de outubro, quinta-feira, conversa com o escritor.
Convido a todos para o projeto do SESC onde falarei sobre o livro de contos - o mais feliz dos silêncios.
Mediação de Talles Azigon.

quarta-feira, outubro 8

LANÇAMENTO LIVRO DE CONTOS "O MAIS FELIZ DOS SILÊNCIOS"

Meu livro de contos "O mais feliz dos silêncios", pela editora Substânsia (http://www.editorasubstansia.com.br/) será lançado dia 09 de outubro de 2014, de 18h30 ás 20h, na Biblioteca Municipal Dolor Barreira, na Av. da Universidade, 2572, bairro benfica  - Fortaleza- CE. Estejam todos convidados!

Quem desejar adquirir o livro pode entrar em contato com a editora em:
http://www.editorasubstansia.com.br/#!loja/ccz3






                                                   

SOBRE O LIVRO
O mais feliz dos silêncios é o livro de estreia de Ayla Andrade.
Em suas páginas, o silêncio, como diria o poeta Francisco
Carvalho, “essa figura geométrica”, vai tomando diversas
formas, tons e cores, perpassando múltiplas personagens
femininas e colocando o leitor em uma montanha-russa de
emoções com o passar das horas. Com ilustração de Capa da
artista Tereza Dequinta, este é o quarto livro publicado pela
Editora Substânsia, primeiro de contos. O lançamento
ocorrerá dia 9 de outubro às 18:30 horas, na Biblioteca
Municipal Dollor Barreira, Av. da Universidade, 2572.
Benfica, Fortaleza-CE. O livro será vendido a R$ 30,00

Um nome que não se define



Esse livro - o mais feliz dos silêncios – diz de muitas coisas. Mas, de todas, a melhor é esse gosto de mulher. Me entenda. Saí de uma mulher e depois estive rodeada delas. Como não crescer uma mulher, assim com gosto?


Alguns contos são batizados com nomes de mulheres, Marta, Sarah Guello (inventada por meus sobrinhos que tinham até música para ela!), Marla com gosto de uva, Regina, Leide da Night... mas, sabendo ser impossível reter aqui, em nomes, uma condição: a de ser mulher. Nosso nome não nos resume e, nem sempre, nosso silêncio é feliz.


No entanto, nesse livro de contos o silêncio é de felicidade e as muitas mulheres, que nele habitam, dele são donas. Algumas bailam,, fumam, manda em seus homens, outras choram, se isolam, ficam loucas e se riem.


Alguns poucos homens ilustram esse livro, ás vezes nem nome têm. São uma poeira fina, de estrada ou de lembrança.


Há ainda aquelas mulheres cuja sombra nos toma a tarde, Stella do Patrocínio (pra quem escrevi “eu tenho delicadamente construído palavras”), Dorothy Parker (que sempre foi uma influência e que tem a epígrafe do livro), Elizabeth Taylor no filme “Quem tem medo de Virginia Woolf” (pra quem escrevi “Marta”). E a moça Francisca, uma em tantas (para quem escrevi Garagem).


De certo há muito que dizer sobre tantas e tantas dizem sobre mim.


Mas aí só lendo o livro.










O lançamento do livro ocorrerá dia 9 de outubro às 18:30 horas, na Biblioteca Municipal Dollor Barreira, Av. da Universidade, 2572. Benfica, Fortaleza-CE

A casa onde se guardam histórias


A escolha da biblioteca municipal Dollor Barreira para o lançamento do meu livro - o mais feliz dos silêncios - foi um ato do destino iniciado há décadas atrás.

Nos idos dos anos 60, minha família morava na av. dom manuel. De lá mudaram-se para o bairro benfica, mais precisamente para o casarão 2572, da avenida da universidade, a agora, biblioteca municipal Dollor Barreira.

Lá minha avó, dona Neguinha, abrigou a numerosa família: marido, filhos, netos e netas, empregados e, ainda, abriu as portas para 5 moças morarem. Logo começou um pensionato para ladys.

Segundo consta, das histórias que ouvi, as hóspedes eram as irmãs Odivalda, Odilma e Minervina - que gostava de ser chamada de Minerva. As 3 eram moças do interior, trabalhando e estudando na capital. Morava, ainda, Elda, professora da UFC, óbvio pela proximidade com a instituição. A casa abrigava, ainda, uma viúva, d. Ilza rolim, que era mui amiga de minha avó, morando com ela até morrer, já em outra casa.

Os empregados eram três, d. Neném, que cozinhava, d. Iracema, que cuidava da limpeza e joão, pelo que ouvi, fazia o melhor mingau para a minha irmã, além de desfilar como rainha, pelo maracatu de fortaleza, todos os anos.

São muitas as histórias que todos me contaram sobre essas personagens, nessa casa em que nunca morei, mas que virou meu lar guardado, sempre e, mais ainda, quando virou a biblioteca da cidade. Não é mesmo um engodo do destino?

Algumas histórias são memoráveis mesmo para quem nunca as viveu. Como a história da feijoada aos sábados, doada por cima do muro, pelo cozinheiro do restaurante universitário – que já operava a pleno vapor na época – á sua amada, d. neném, cozinheira de nosso pensionato. Feijoada, essa que era dividida para todos. Minha mãe particularmente adora contar essa história, como quem lembra o gosto da feijoada e o gosto dos sábados.

Assim como os natais, que segundo ela, eram incríveis e na área da entrada da casa e, óbvio, reunia a todos, família ou não. E era essa a característica dessa casa-pensão, a mesa era única para todos, onde comiam juntos e deviam partilhar suas histórias de anos 60/70.

Outra história que acho divina é a em que joão, a rainha do maracatu e ajudante de minha avó, em certo dia de desfile do corso, havia ido buscar sua peruca em um salão de beleza. No caminho de volta, segurando majestoso sua cabeleira postiça - quase como se segura a boneca calunga – se rompeu em susto ao vê-la indo embora, roubada por um rapaz em uma bicicleta. Teve sua peruca substituída por outra, emprestada por minha mãe, mas de certo não era a mesma coisa.

Posso contar outras tantas histórias que ouvi sobre essa casa e seus moradores, minha família.

Essa casa, que sempre foi minha e nunca foi, virou magicamente uma biblioteca enquanto nós vivíamos, enquanto eu escrevia minha outras histórias e, esses dias abrigará um encontro ao passado, quando meus entes - que lá já moraram – para lá retornarem, ao lançamento do meu livro.

Nem que seja por algumas horas, mas a memória do passado e do presente estarão vivíssimas naquela casa onde se guardam histórias. Escritas ou não.




o lançamento do livro ocorrerá dia 09 de outubro, ás 18h30, na biblioteca municipal dollor barreira, na av. da universidade, 2572, benfica. fortaleza-

quarta-feira, novembro 28

A sua cama, carrossel de parque: a cidade pequena, a boca grande e a crueza das pessoas.


A sua cama, carrossel de parque, picadeiro de circo, bailarinas e fadas. Essa magia de beira de estrada que só os palhaços tem.

Assim como no circo, um espetáculo sucede o outro,  cada artista faz seu número, independente do sucesso ou fracasso, de aplausos ou vaias. 
O entra e sai por trás da cortina é o que o movimenta o circo, é o que faz dele a atração do lugar. A sua cama, carrossel de parque.

Quando o circo exaspera suas noites de brilho é hora de partir para outra cidade, para outra rotina, pegar a estrada, outras bailarinas, outras fadas, desmontar o carrossel e trocar de lugar os cavalinhos e as vaquinhas.

Até que se encha de novo, a cama, a carrossel, o picadeiro, as fadas, bailarinas e vaquinhas.

Não se enche o mundo de tanto luzir de tomada, de tanta luz falsa, de tanto vazio depois das onze, de tanto espetáculo de conhecido e igual final?

A próxima rodada do carrossel, a próxima noite no picadeiro, a próxima vaquinha a ser montada, as fadas e bailarinas no contorcer a caber na sua cama respondem: a cidade pequena, a boca grande e a crueza das pessoas.


















segunda-feira, outubro 1

Colher

Nunca acostumou-se com a cara borrada no espelho. Fosse qual fosse o espelho, ali se apresentava aquela imagem de vulto.
Era pra nunca esquecer, era pra nunca tornar-se a memória, aquele borrão. Era preciso ser aquela mancha porque de outra forma tomaria forma uma cara limpa, sem marcas, sem explicações, livre, coisa que por dentro não sentia.

Ainda que sozinho, ainda que com a cabeça sobre o braço naquele momento do dia que nada tem significado - é só um tempo entre um acontecimento e outro -  ainda assim há que se lembrar que a imagem no espelho é um borrão.

Um borrão como todo o resto que continuou existindo sem a sua presença.

sábado, setembro 15

Crivo

Algumas cicatrizes servem para nos lembrar do que não repetir. Outras
nos dão vontade de sangrar novamente.

sábado, julho 21

503

Tomar o ônibus errado pode ser, por vezes, a melhor coisa que você pode fazer por você.

Carruagem pluma

Com todas as palavras ditas, caminha a carruagem sem saber do paradeiro
de suas rodas.
A carruagem se arrasta, terra em senda, só com o oco da carcaça.
As rodas, madeira pura, grudaram no caminho, meio da lama, areia funda, calcário.
A carruagem segue porque ela é feita pra isso.
As rodas, embora embotadas de movimento, prendem-se ao caminho, ao que as faz rodar, posto que são rodas.
Mas a carruagem, mesmo sem toda a desenvoltura circular que a faz girar no mundo, será sempre uma carruagem, ainda que parada, ainda que distante, ainda que vazia: uma carruagem.

terça-feira, maio 22

Notas de diário roubado: crônicas + interferências sonoras


Para ouvir:
http://soundcloud.com/bin-rio/sets/notasdediarioroubado/

Para baixar:
http://www.sendspace.com/file/51x2fp


Mme. Drunken Butterfly - Notas de diário roubado

Há tempos escrevo um blog que conta as histórias da Madame Drunken Butterfly, uma borboleta boêmia, exagerada e de poesis urbana.
No entando, mesmo sendo a autora sempre me senti como uma espectadora a observar o cotidiano dessa borboleta.
Um livro de crônicas é um modo de comunicação direta com o leitor. Conversa-se com ele de forma que não perceba os fios que o conduzem a se envolver na história. Quando perceber pode ele mesmo estar bêbado.
Dessa forma, o blog, quase que de forma autônoma, se tornou um livro de crônicas e desse para uma versão com áudio. Apresentamos aqui, eu e Gil Duarte, essa versão com áudio, sendo de sua autoria as interferências sonoras. Um resumo do livro original de crônicas Notas de Diário Roubado, mas isso não prejudica o leitor ouvinte de participar dos encantos e desencantos de Drunken.
As histórias contam trechos da vida de uma borboleta boêmia, moradora de um jardim que fica na cidade grande, cercada, ela e a cidade, por bares e seus diversos personagens.
Interagem todos, ela, os personagens e a cidade, em meio as estações do ano e os sentimentos que afloram dos desencontros. Sim, por que os encontros são todos interrompidos, inacabados e não se sabe se reais.
No mais, as crônicas se apresentam mediante os humores e os amores de uma Madame Borboleta Bêbada.




Aqui um trecho da crônica recitada, mas adianto que é mais legal escutar todas as crônicas + interferências sonoras.

As asas continuam batendo junto com o coração que eu queria que parasse.
Talvez meu coração devesse ser as asas que tenho. Elas são leves; ele pesado. Elas têm cores variegadas e ele é monocromático. Elas me levam e, a ele, eu carrego. Com ela vôo e com ele não consigo dar um passo.
Tenho um amigo que diz que sou sensata, mas digo a ele que não é sensatez: é meu coração que me impede de ir adiante, aonde as asas querem me soltar.
Por isso a palavra é cuidado.
Entre sementes e jardins, tenho andado, entre flores e caules espinhosos, tenho andado e a palavra é cuidado. Não pelos espinhos, não pelas rosas. Mas por que diante da possibilidade do efêmero me entristeço. Tudo tem sido efêmero e assim o é, principalmente aqui na natureza, aqui onde vejo as árvores e suas mudas de folhas, os caules enrijecendo e enegrecendo e os passarinhos que abandonam o ninho ao voar.
Mas (!), diante do que é belo choro. Ainda.
E isso ainda me faz querer ter coração e olhos, e peito e lágrimas e dores e amores.
Antes só chorava por que sofria.
Que feliz descoberta a de chorar pelo belo.
Aprendi há pouco e me delicio lambendo os lábios, os meus e os seus.
Que feliz descoberta, a de chorar pelo belo.
Mas mesmo assim não tem sido fácil bater asas. Parece que me desacostumei a elas. Elas ainda pesam, PIOR, elas agora pesam.
Antes era delicioso voar, mesmo com dor. Não tem sido assim.
Não tenho conseguido o desprendimento necessário, acho.
As coisas estão postas. O que faço com elas agora?
Me parece que tenho viajado léguas, mesmo sem saber aonde ir. Sentindo o cheiro das flores, como se adivinhasse o caminho, ou a seguir os pássaros que migram. Mas de certo não sei aonde ir, mas vou.
Me parece que tenho viajado léguas, sem chegar nunca. E trago comigo muitas bagagens. Me desfaço delas em cada parada, cada porto, vilarejo, mas nas léguas seguintes elas estão lá. A me tomar o caminho, a me prender ao chão. Eu sei que não as quero que delas não tiro o que preciso, que com elas meu chão parece inóspito. Embora agora veja flores, campos na primavera. Mas me parecem não durar um sopro sequer.
Me desacostumei a primavera também. Sempre desconfio dela.
Há felicidade e flores demais na primavera.

Escute e ou baixe e me diga aí!

Mais: 
http://www.negodito.com/reversos-madame-drunken-butterfly/



sábado, abril 21

A bóia amarela

Gastei minha adolescência com filmes bobos demais. Hoje, náufraga, procurando no mar aquela bóia amarela que ajuda a flutuar, tenho tempo pra pensar. Enquanto afundo e respiro, afundo e respiro, entre a falta de ar e água que me engasga descubro o tempo perdido, as horas gastas e que me trouxeram aqui.

Antes de totalmente me afogar penso que assim é. Lembranças servem pra isso, descubro agora. Você as usa na melhor das ocasiões, ás vezes com a voz da pessoa que desperta sua lembrança. "Não foi como você queria, mas é assim". Deal with it, seria a expressão usada naqueles filmes bobos da adolescência.
Penso que não estou lidando da melhor forma possível, já que estou me afogando.

Se eu me afogar significa que eu desisti ou foi só um acidente inevitável?

De qualquer forma eu não escolhi me afogar, me jogaram um balde de água fria desde o momento em que resolvi ter sonhos. E quando você pensa que isso é a história da sua vida, você escuta a moça do lado, em um consultório médico, onde tudo é impessoal, expondo em lágrimas, através de um celular,  os sonhos desfeitos.
Pensei em jogar-lhe também uma bóia amarela e salvá-la, mas eu mesma me afogava ali ao lado, nos meus próprios sonhos desfeitos.

Mas assim como nos filmes, onde tudo dá errado pra moça feia e desengonçada que no final ganha uma piscadela do garanhão da escola, entre a falta de ar e a água que me engasga, espero que a vida me sorria e não me deixe afogar.

Mas se eu me afogar é porque a bóia amarela me faltou e saberei por certo que os filmes eram mesmo bobos e que com eles gastei tempo demais.





segunda-feira, janeiro 30

Jaguaribe, beira de rio.

A primeira vez que pisei o chão do rio, aquele a quem chamam Jaguaribe, senti um cheiro que me acompanha até hoje. 
Áquela época, o corpo banhava-se com sabão importado, cheiro bom, de verde e lavanda. Os rios tem hoje esse cheiro que me alimenta a alma. Hoje visito muitos rios. Sempre que piso qualquer chão de rio, sinto esse cheiro verde e lavanda. Mas nunca, nunca tão forte quanto o daquele a quem chamam Jaguaribe.
Naquele rio, verde e lavanda, a sua cabeça fazia sombra pra leitura do meu livro. O sol ofuscava a vista mirando as folhas brancas, eu mal lia as frases, cega de palavras. Henry Miller disputava com o marulho do rio. Sim, rio tem marulho e eu me maravilho com a grandeza daquele a quem chamam Jaguaribe.
Eu alimentava os peixes á beira do rio com baião de dois, assim, na boca. Você, perdido no tempo, olhar gigante sobre a margem daquele a quem chamam Jaguaribe. Vez ou outra lembrava dos peixes e do baião de dois. Ria-se com a cena: alimentar os peixes á beira do rio com baião de dois. Os peixes também, olhar gigante sobre o chão do rio, vez ou outra, lembravam de nadar. Você me explicando o rosa nas pedras do rio: a maré que enche, vaza e seres estranhos que fazem da rocha o nascedouro. "Isso a gente come. Quer dizer a gente, na verdade, bebe, mas usa esses para tira gosto". Rimos.

A água do rio transparente como nossas almas.
E cruzamos o rio, ponta a ponta, ouvindo as conversas distantes dos senhores e pisando o chão do rio, dia claro, água límpida, pedras-nascedouros. Palavras lidas por horas do livro, á sombra de sua cabeça.
Líamos e era bom. Ler para bem querer. É dos prazeres mínimos que tenho saudade. Ler pra quem se ama.

Palavra dita ao vento é bumerangue que bate no ouvido e volta no coração.
 

Wilson

Todo saudoso é um náufrago. Toda saudade é uma deriva.

terça-feira, janeiro 17

Constatação


Quando morrer andarei por esses corredores
recitando poemas...
os que ainda lembrar,
mesmo depois de morta.

Por onde andei enquanto buscava você ou a saga das Madaleñas


Enquanto percorria o caminho tostado pelo homem eu pensava que era uma só. 

Mas não, somos tantas e tantas veias percorremos que  sufoquei a mim mesma com o travesseiro, o saco plástico e as mãos.

Você que é homem e me engole de dia e me vomita á noite.

E enquanto eu percorria a cana de açúcar, essa do nosso sangue, descia, garganta a baixo, o gosto de você: gosto de bile que é ácido e, por isso, me trava e não digo palavra. 

E esse caminho, ácido e tostado, é deserto. 

E é lá que vivemos, todas nós.
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Diagnóstico


Trago na ponta do meu lápis o ácido que me corrói o estômago. 
Se o cuspo fora com poucas palavras, carne de minha carne, é porque nada mais me restou que pudesse oferecer.

quarta-feira, janeiro 4

São Paulo e onça.

Eu lembro das ruas de São Paulo e seus prédios opressores. Sua arquitetura alta, sua meta cinza. Lembro do gosto do suco de laranja da São João com a Ipiranga. Nada de samba, nada de amigos. Algumas poucas cervejas geladas e o dia ainda frio. A mesa na calçada, quase como na minha cidade, mas essa cidade é outra como eu sou outra agora. Por isso mesmo, agora, lembre de outros lugares, outros cheiros, outras cores. Essa dimensão que é a viajar. Sair do olhar natural, do estado natural das coisas. Sair agora de mim foi a melhor coisa que poderia ter feito. Sair para sentir-me outra, fugir mesmo. Do tempo, dos sonhos, da treliça do passado. Me nego a pensar que o ano novo me tenha feito repensar. Não tenho repensado, tenho agido. Tenho, de punho forte, criado as horas sobre mim. Sem espera, sem escapadelas ao relógio, de vara curta cutucando a onça, essa onça que sou eu.

Como de São Paulo cheguei à onça, não sei. Foram os bandeirantes, penso. Mas meus antepassados eram portugueses sisudos e de bigode. Ainda prefiro a onça: fêmea, com fome e disposta. A que corre léguas por que sabe do caminho, a que corre léguas por que sabe o que encontrar, a que corre léguas por que quando chega sabe o que fazer. Por isso, me sei onça. Ainda o cheiro de carne, ainda o sangue, ainda as vísceras. Toco em mim e sei que ainda estão lá. Apesar da caça, da predação, da quase morte. Ainda aqui, a onça e seus dentes. Suas mamas e saliva. Sua boca, seus músculos e sexo.

A onça sem juba, só sobrevida e existência. Sem dor aos demais, no ato que lhe faz onça. Aquela que corre as matas, aquela que cruza com os escolhidos, aquela que se faz forte para, à noite, desabar em galhos de árvores altas na ofegância do dia novo, aquela que nos dias quentes refresca-se à sombra do que tiver. Aquela que de tão onça se sabe livre.






quinta-feira, novembro 17

Insônia

E eu guardando pequenos segredos nessa madrugada do sem fim
consumindo elefantes, derrotando formigas, assustada com os benjamins.

quarta-feira, novembro 2

Agora visto seu pijama e sua pele habita em mim




Agora visto seu pijama e sua pele habita em mim e
me arrasto entre as horas como se relógios fossem obsoletos.

Meus dias não se guiam em horas, mas no uso que da casa faço.

Como no banheiro, durmo na sala, escrevo na cozinha
mantenho as compras no jardim e banho-me no corredor
subverto com precisão a ordem do lar

As horas não me dizem se é noite ou dia:

eu anoiteço por mim mesma quando cerro os olhos
eu amanheço por mim mesma quando dói



Desmaio por tardes inteiras, remontando histórias mal contadas
fazendo delas um fiado meu, com meu fôlego de peixe:
prendo a respiração e o mar me abraça
fundo, abissal quase como aquele beijo embaixo da chuva

Repito minhas preces incessante vezes para que as divindades
não se confundam como eu me confundi
para que as palavras, fixas no céu do quarto, caiam diante de ti
quando da sua presença em minha cama
estrelas-palavras-meninas-imberbes para o desfrute desse gosto que é seu

Visto seu pijama e sua pele habita em mim
e me assombro com a pergunta:



O que, quando nos momentos de silêncio
o que, quando deitado no travesseiro, no escuro da noite a dentro
o que, quando no suspiro último antes do sonho
é enleio, é idílio e sou eu na sua memória
o que, quando a sua carne reflete o que tem dentro da ostra
o que é real e se conhece pelo cheiro



Porque suas mãos suam, seus olhos vidrificam
e sei que de lá não sai palavra que me explique
resposta que me seja dada
para o que meu coração quer saber



E meu coração é cavalo torto
que de rédeas não tem conhecimento

Meu coração é cavalo torto
que não aprendeu a dividir



Mas ainda assim



Vem porque mesmo o cavalo mais torto
busca direção para não caber no precipício

Vem porque mesmo o cavalo mais torto
sabe que para tanto precisa de montaria



Vem porque há tempos descobri que
cavalgo melhor com teu enlace e dureza

Vem porque mesmo o cavalo mais torto
é capaz de ter no peito um coração de criança.



segunda-feira, outubro 31

Sábado

Enfiar Fortaleza no bolso
e esse medo que ela me traz.
Consumir por dentro do peito
essas esquinas da minha cidade
e delas refazer o dia e noite
como quem não sonha mais.



Porto

Quando anoitece o ocaso sou eu.

sábado, outubro 22

Metade

Quem dera escrever como quem narra um jogo, como se o final soubesse.
Eu só sei começar e, de começo em começo, penso que o meio resolve.

domingo, outubro 16

Desmoronamento

Crivado de pedras meu peito adianta o dia como se empregado das horas fosse
para cada hora invento um certo tanto de desperdícios
de vida
de sabores
de sorrisos

É certo que mesmo com o peito crivado de pedras
o avante do dia prossegue
eu nem quero, mas a noite chega
a noite tem cheiro tão único que o reconheço quando o dia amanhece
e digo: hoje o dia é noite, porque tenho o peito crivado de pedras.


sábado, outubro 15

COMBO

Com os dentes trincados cruzando o asfalto
perambulo com afinco, pé ante pé, póros em riste, músculos afoitos, peito em dor.

A cidade me atravessa.

Nesse caminho que a cidade cria, entre viver e estar morto,
é possível gritar, é possível.

É possível simplesmente porque as pessoas não se importam.

Por dentro, elas todas gritam.

Ninguém tem tempo para o grito alheio quando o seu próprio grito é um eco sem fim dentro da cabeça,

mas com os dentes afoitos, cruzando o peito
perambulo com póros, pé ante pé, em riste.

A cidade me degola.

Assim que piso a rua, esse feixe de luz, essa luz que corta, passa rente, fina, à altura do meu pescoço e me degola.

Todo dia.

Sem

Com algum sorriso no rosto
com algum lema no peito
com algum ardor na carne
com algum sapato nos pés

Com a flor no cabelo
com a mudez necessária
com alguma esperança no peito
com a escuridão que sufoca
com a solidão que esperneia
com a madrugada inteira pela frente
com as luzes da rua

com a cegueira em mente
com algum devaneio nos dedos

Com algum vazio na barriga
com alguma bílis no vaso
com essa dor no ocaso
com o choro em engasgo
com a lágrima que limpa
com a promessa do divino
com sono na cabeça
com um não na boca
com a incerteza nas mãos
com você indo embora

com desejo entre as pernas
com suor e com amor
com a roupa e sem
dentro do carro ou não
com chuva e com cachaça
com o dedo e com a língua
com a tua e a minha

com a saudade que invade
com a falta que me faz
com o vazio da sala
com o cheio do sofá
com o miado da gata
com a ousadia do pintoso
com a pia em desuso
com a tv em profusão

eu adormeço fazendo da rede teus braços.



sexta-feira, setembro 23

Primavera

O riso é histérico porque a vontade é de choro.

sexta-feira, setembro 16

Dress up

Chocada com os últimos acontecimentos, ela resolve vestir-se de pulôver, botas e nenhum batom. Ir pra rua, ao vento, o despenteio dos cabelos, o cheiro. Todos os clichês de quando se pisa na rua, chocada com os últimos acontecimentos.

segunda-feira, dezembro 13

A FLOR NO CABELO - em especial para o blog: americalatindo.blogspot.com

Ela com a flor no cabelo é ainda mais oferecida que a maioria
das outras com flor no cabelo.
Flor no cabelo é pista, é dica, é toque.
Tome minha flor, mais acima, mais a vista, mais exposta.
Pra que esconder o que eu sei que você quer? - ela diria, a flor.

Ela com a flor no cabelo, espera entre luzes semafóricas a travessia
dos autos. Ignora por desantenção, por não achar possível, que uma flor no cabelo seja o motivo de tantos engasgos. Mas aqui na América Latrina, uma flor no cabelo é um sim.

É um sim de boca larga, boca amaçanzada, dentes á mostra e voz rouca. Quem fala é a flor no cabelo. Não importa se é moça singela, se é moça casada, se é moça-homem, a flor no cabelo tem voz própria, é pacto velado, todos sabem. É um sim.

Uma flor no cabelo, na América Latrina, faz plástico ter cheiro de flor colhida e fresca. Faz vestes de madame virar saia de meretriz. Faz o caminho de casa se desenrolar em ataques frontais de verdureiros e aldeões.

Ela com a flor no cabelo, a despeito do cheiro do plástico e da própria flor no cabelo, não desvenda o código das multidões em conserva dentro dos ônibus, olhando vezes furtivamente, outras encadescentes, o rebolado da flor no cabelo.

Ela caminha descompassadamente como se chegasse em casa a cada quarteirão, sempre desacelerando. Você espera que ela tire a chave da bolsa e pare em frente aquela casa, a próxima, depois a outra. Querendo que ela se salve das salivas patriarcais da América Latrina. Mas ela não se salva e parece não se importar. Não parece haver ofensas e nem tampouco desagravos. A flor no cabelo responde por ela.

Ela com a flor no cabelo esconde por entre os fios enegrecidos um headphone, uma música distraída, uma forma singela de escudo, que em definitivo a salva dos gritos de invasão e posse de terra que acontecem ás flores no cabelo, aqui na América Latrina.

terça-feira, outubro 26

FANTASMAS - EXERCÍCIO

Há tempos te digo que são esses fantasmas cotidianos que nos fazem seguir em frente.
São eles que, na casa nossa, nos seguem no desfiado do dia, que nos alimentam com o que nos falta e não vemos.
Esses fantasmas que sempre nos pegam desprevenidos, nus e desatentos.
Eles tem carne pouca que isso é de outros tempos.
Eles tem alvuras tantas para as horas de agora.

São esses fantasmas que nos cercam no desalinho da vida para nos guiar
caminho a dentro, sem desvios ou piscadelas.
E você nunca sente:
A mesa vazia, a cadeira errante.
A pele fria, a voz quente.

Eu te falo e você pouco crê.
As pernas compridas como o sibilar que se espalha pelos corredores.

Esses fantasmas ilustram-se de cores porque sabem do preto e branco
das histórias comuns, do preto e branco que nos faz ser quem somos.

Sigamos, então, mãos dadas para atravessar a vida e os fantasmas.

segunda-feira, junho 14

Desconexos 5

Para não dizer que de amargor vive uma boa poesia,
digo que de amor vive uma boa fantasia.

Desconexas 4

"Did you say "no, this can't happen to me,"
and did you rush to your phone to call?
Was there a voice unkind in the back of your mind saying,
"Maybe...you didn't know him at all."
Jeff Buckley

Sempre que se olha no espelho ela recobra a memória. Devem ser as marcas, as cicatrizes, o olhar perdido de quem não se encara direito há muito tempo, talvez por medo de recobrar a memória.

Ela queria mesmo era o esquecimento. O esquecimento gratuito, espontâneo e não aquele que vem pelo tempo. O tempo não responde mais aos seus pedidos-quase-súplicas. O que ela achava que eram meses, duraram apenas horas, e mesmo assim, duraram à penas; horas.

Ela tem raiva lá de fora, da vida acontecendo miúda enquanto ela pensa coisas grandiosas e odiosas.

E que não perguntem se ela anda triste, porque se vê sem o espelho, que ela anda triste e anda mesmo, com os pés a roçar o chão como que com medo de ser levada por uma força superior que a tire do planeta antes das coisas gigantescas e odiosas serem resolvidas.

E não tendo como o dia ser mais claro e nem as palavras, ela copiosamente leu em disparada as cartas antigas dele para outras tantas.

Leu e releu como se por mágica cada palavra pudesse cortá-lo um pouquinho e dele saísse, como oração: - every word is like a knife, but the silence cuts you twice!
E como ela está seca de palavras ela se utiliza das dos outros, das dele especialmente. As dele vem fácil, são quase todas mesóclises porque cabem sempre mais de dois, tipo, dar-lhe-ia, encontrar-te-ia, meter-lhe-ia, ménage-à-trois.

As dos outros são de afagos, não para ela, que para ela sobra pouco: primeiro ele, depois alguns outros e aí, ela. E nesse momento a cortina se abre, os aplausos pululam e ela tem breve lapsos de esquecimento-quase-gozo.

Egoísta, diriam alguns sobre ela, mas se ela contasse no ouvido dos poucos escolhidos o que ela sabe, melhor a entenderiam e saberiam que sim, é egoísmo também, mas de certo faz parte dessa plêiade de orgulho e dor um punhado de doçura que pede do outro um tanto da mesma medida, que seja sincero para além dela e consigo mesmo.

E se nada até aqui adianta e adianta para a frente o que há muito se tem prometido como futuro certo, então que fique o caminhar mais lento, sem pressa, sem desvario, sem promessas tantas, sem fôlego corrido com vontade de lá chegar.
E se ninguém a espera quando o fim chega, ela mesma apazigua seu coração.
Porque ela aprendeu isso antes do amor chegar.

Desconexas 3

No amor tem volta ou se deve ir sempre em frente, como se adiante todas as respostas estejam a ponto de colheita no pé da estrada?

Desconexas 2

Quem dera ela desse seu coração sem disciplina, sem ganas de amor tanto.
Ela aprendeu, e aprender não é palavra para amar, que no amor se desaprende a ser um só, querendo uma casa para dois.
Ela aprendeu que amor vem de repente e ela queria estar preparada, toda pronta, de alma límpida e feliz.
o amor veio, ela sabe. Ela se sentia pronta, mas o amor, no seu desaprender, bagunçou o que no espaço cabia perfeito.
Agora que tudo é amor e bagunça, ela pensa que dar o coração sem disciplina como fazem todos, pode ser o caminho de volta.
Mas ela se pergunta sempre por dentro: - e no amor tem caminho de volta?

Desconexas

Só uma tristeza profunda me preenche.

sexta-feira, abril 23

Sexta

Hoje acordei medrosa
a boca toda era uma rosa

sábado, abril 17

Bromélias

Hoje acordei velha
a boca toda de bromélia

A carruagem

Se era para casar com alguém, ela escolheu aquele que tinha a carruagem mais confortável. Ela sempre admirou as carruagens e os homens que as tem. Escolheu dentre alguns poucos pretendentes um senhor baixo, de casaca, bigodes já grisalhos que lhe atestavam alguma experiência ou coisa que o valha para um senhor daquela idade. Prestou pouca atenção, de fato, no senhor de bigodes, mas demonstrou-se atenta com a carruagem que o trazia ao passeio.

Ela sempre gostou de passeios. Talvez porque as freiras do orfanato cinza tivessem o hábito de passear costantemente, só para comer amendoins na praça. O amendoim da praça era mesmo delicioso.
Mas agora, ela, sra. bigodes, passearia de carruagem. Não ficaria mais suja de lama e bosta de cavalo que emporcalham toda a barra do vestido. Não caminharia ofegante, o peito apertado na peça colada ao corpo, que mais parecia camisa de força, mas que, diziam os homens, principalmente os costureiros, que lhe acentuavam a silhueta. Não teria dores nas costas de carregar os cinco quilos que pesam o vestido verde com rendas, próprio para o passeio. Não despentearia o cabelo amarrado a 200 grampos de ferro para que se distribuam bem debaixo do chapéu adornado. A carruagem é o máximo em conforto para uma mulher como ela.

o sr. bigodes chegou na carruagem que, em breve, estará a serviço da sra. bigodes. O cocheiro, sem pressa, abriu a porta e de lá surgiu a mão pequena e branca de luva que oferecia a ela o apoio para montar no carro. Ela de pronto ergueu a mão e adentrou no vagão. Era bem decorado com veludo negro e flores rosa em escuro e relevo. Realmente de bom gosto, ela pensou.

Sr. bigodes sorriu, ela também. Ele perguntou aonde ela gostaria de ir. Ela respondeu que poderia ir em qualquer lugar, desde que não precisasse sair da carruagem. Ele maneou a cabeça em sinal de acordo. Bateu três vezes no teto do vagão e logo o carro seguiu viagem.

Ela não se demorou em tocar no assunto e falou que estava disposta a casar, por saber que ele também necessitava uma esposa. Quero ser esposa, ela disse. Ele maneou a cabeça em sinal de acordo.

Daquela tarde em diante, todos os dia ela passeia na carruagem, a sra. bigodes.
Desde então ela pensa que a vida não poderia ser mais feliz.

terça-feira, abril 6

Manhã

Acordei com a boca florida de margarida.

segunda-feira, janeiro 18

Exercício III

para tanto é preciso dor
é preciso um bocado de fervor
é preciso um trocado de

para tanto desconheço desmesura
dispenso tanta honrura
e sua fala de doçura

meus passos largos
tem pressa de ir a frente
se asas tivesse engarrafava azul
o céu todinho pra mim

Exercício II

Tento forçosamente colocar para fora
esse poema que me engasga a goela

ele não sai

estou a dias com ele na cabeça
na língua
nas vértebras todas
mas ele não sai

ele não quer palavra
ele não quer papel
ele não quer marcas

talvez não busque cúmplice
talvez não diga muito
talvez não resista a mais essa noite

ele sai de cor cabeça afora
com as formas todas em desalinho
e agora pousa silêncio

esta noite quando da sua volta
quem sabe
eu segure as palavras pelo grelo
porque o grelo tem sempre mais culhões

segunda-feira, dezembro 7

RETORNO

Voltei pra poesia
mas a poesia não voltou pra mim.

sexta-feira, dezembro 4

SEM TÍTULO

Às vezes escrevo e vomito
ao mesmo tempo

quando termino
limpo a boca

ainda escorre um tanto:
palavra líquido ontem

ainda escorre do canto:
troço bílis poema

CANAL DA MANCHA

atravessei o canal da mancha
com o travessão na garganta.

VENDO ESSA HORA

Vendo essa hora que passa
vendo a preço barato
que de nada ela me serve

vendo essa hora que passa
do relógio ou da escada
mas de nada ela me serve

se não adianta o fim do dia
se não chega essa folia
se não digo o que queria

se atravesso o meio dia
com a garganta em agonia

se converso com a maria
se vivo em fantasia
se trago essa mania

vendo essa hora que passa
vendo a preço barato
que de nada ela me serve

domingo, novembro 15

Exercício I

uma noite muda como essa.
azul burburinho.
uma lua que não sabíamos.

uma noite dessas em que se atravessa.
somente.
a despeito de quem a caminha
ela vai, escurecendo por dentro e por fora.
amarelo-andino.

da Poesia

Poesia é jogo para matar o tempo.

segunda-feira, agosto 10

Canções devastadoras

"Oh, dama da noite
tu que vens exaltada
cantando canções devastadoras
és sempre assim tão nua e crua
que respondes feito uma louca?"

de Nathan Matos

p.s: a resposta nem era louca.

terça-feira, junho 16

10 pra meia noite

São 10 pra meia noite
E eu me preparo pra viver

Essa hora não me corta a garganta, mas antes a disseca.
Fica à mostra, as amídalas inteiras,
eu quase as toco como um maestro que conduz sua orquestra.

Exceto pelo fato de estar só.

Mas depois respondem os coqueiros, as corujas, as buzinas ao longe, as máquinas, os amantes, a luz do poste que faisca,
um tremelique de leve no portão de trinco frouxo.
Eles se entendem.
Eu é que converso só. E é bom assim.

Essa hora me solta os nós dos dedos, da alma, da dor, o sorriso largo, o fel quente e apaziguador, os pés são 2, os dedos muitos, o coração nem bate por que a respiração parou.
O que tem essa hora que me basta?
O fim do dia ou o que virá ainda?

Escrever me deixa trêmula

Escrever me deixa trêmula.
Escrever me deixa lâmina.
Escrever me deixa ácida.







Escrever me corta o estômago.

quarta-feira, maio 6

...

Comportada como uma borboleta
ela resolveu regurgitar
os últimos suspiros de descência que lhe restavam.

quinta-feira, abril 16

Meninas, chuva, estátuas e a cidade - Especial para O POVO

http://www.opovo.com.br/opovo/especiais/cincosentidosiv/870683.html

Ayla Andrade fala de uma Fortaleza palpável como o asfalto que nos encobre dia-a-dia, como a cortina de fumaça no ar do meio-dia. De trânsito intenso, vuco-vuco, a cidade pequena insiste em ser grande e devorar a província que nela habita

Ayla Andrade
Especial para O POVO

Fortaleza é palpável. Palpável como as meninas à beira-mar. Fortaleza é uma menina à beira-mar. Assim, exposta, ensaiando um sotaque, noite alta, meio desesperançada, mas acordando cedo; sonolenta e com fome, muito porvir que nunca virá. Esperando um trânsito intenso, entre ir e vir, um vuco-vuco, como se diz por aqui, dos que ainda não sentiram Fortaleza entre as coxas. Um povo caloroso e hospitaleiro, que sabe receber bem, dizem por aí à boca larga. Sim, somos. Nos damos por inteiro, corpo e cabeça, ao que de fora chega, embora não nos conheçamos apropriadamente. Embora queiramos sempre pertencer a outro lugar. Síndrome do passado de capitania abandonada, montes de areia entre Pernambuco e Maranhão?

Fortaleza é palpável como esse asfalto que nos encobre dia-a-dia, essa cortina de fumaça que quase tocamos com as mãos no ar do meio-dia. Intenso trânsito, entre ir e vir, outro vuco-vuco, da cidade pequena que insiste em ser grande e devorar a província que nela habita. Mas essa província somos nós, em cada pedacinho calejado de sol e fugidio de chuva.

Quando chove Fortaleza corre. Alguns, muito poucos, dentre eles eu, permanece sentindo a chuva e guardando entre os dedos o pingo que deus dá: a chuva se vai rápido por aqui. Molha os cabelos e a rua e se vai. Se demora por mais tempo é coisa desregrada, fora da rotina. Logo tudo se faz em atrasos e desculpas, em meio ao desconcerto da cidade molhada.

A cidade molhada é bonita vista da areia do mar. Me demoro pela orla porque Fortaleza me parece melhor tendo o mar como vista. Essa superfície de verde-oliva, horizonte em pluma, salgado que se toca e me lambe os pés, brisa que alivia, água de coco ou cerveja que desce tilintando garganta abaixo com o sol em cima. Fortaleza tem um mar que me entende.

Mas Fortaleza é uma verdade intransigente. Fortaleza bate na pele, entra pelos ouvidos, se sente por dentro e sem profundidade. É cidade inacabada que copia óperas também inacabadas. Repete os erros de si mesma, dia e noite, torturando seus filhos ao limite. Tem vezes que os grilos cantam mais alto, porque ninguém mais tem algo a dizer: é domingo, certamente. Fortaleza é domingo eterno. Você sente no corpo a indolência citadina dominical.

E nos passeios dominicais fica fácil reparar as estátuas que povoam sozinhas a cidade. Tem general, maestro, professor, índia, tem gente de cobre e metal que um dia foi vivo. Às vezes eu toco essas estátuas, sua carne fria e sólida, assim como se visitasse o túmulo de um ente querido, por sabê-lo feito do mesmo substrato que eu: Fortaleza. Mas o que me toca são os monumentos aos poetas. Poetas de aço, de mãos estendidas, a cobrar o que não lhes foi dado em vida. Com as bocas cerradas, sem dizer palavra. E penso, quase como oração: que não me falte palavras na boca, como na boca de estátua do poeta; que não se torne rija minha mão como a mão de estátua do poeta, que eu não conserve em mim, maciço cobre no peito, como o maciço peito de estátua do poeta.

E como poeta repouso minhas palavras sobre essa cidade. Sinto os amores e as dores, sigo entre ir e ficar. Me dizem que sempre fico. Como arranco de mim as entranhas com as quais nasci?

Ayla Andrade, também conhecida nos bares do Benfica, como "Dama da Noite", é uma das fundadoras do grupo Parafernália. Publica seus escritos, desenhos e colagens em fanzines e na revista Gazua, e também se apresenta fazendo leituras dos poemas e contos em rodas de poesia e projetos culturais.

sexta-feira, abril 3

encantamento

porque nos faltou mais banhos de chuva
suor e tempestade

porque nos foi doce o encantamento
e sobrou tantos sorrisos em outras bocas

porque o dia corre solto
devagar e preciso
feito relógio novo

correm as horas abrindo caminho
para o sol se por
para os girassóis se irem
para a cidade se acender

corre a noite em minhas entranhas
avisando que esse corpo é outro
que ele avança largo e cuidadoso
e por isso ausente

agora a palavra é saudade
porque o que sobra de ontem
é passado represado
na memória de outros tempos

Campeio

eu ando insistindo em ser mulher
caminhar lento entre um vão e outro
torturar horas de silêncio e mansidão

venho cozinhando entre horas de fervura
esse dizer que é meu, mas me trava a boca
esse dizer entre amargo e doce

esse tempo de outros tantos
essa carne que se alastra cidade a dentro
nem minha, nem sua

essa sobra de nós
se aventura faiscante pelo dia
e não se demora noite afora

hoje que é findo o nada
o pálido desejo
e essas mãos quer eram suas

terça-feira, março 31

delineador amigo

quem precisa de um namorado
quando se tem um delineador que realmente funciona?

sexta-feira, março 13

É preciso falar com estranhos

ela se explicou, na fila,
por que comprava o presunto mais barato:
- nesses dias é preciso aproveitar as ofertas!
eu pensava que seu vestido florido, o cabelo em grampos tortos,
as unhas por fazer e o cheiro de guardado reservava
uma outra conversa.
É preciso falar com estranhos.

sem título

nos dias em que a poesia me acompanha
sinto o quente do porvir
nos dias em que a poesia me abandona
sinto o cheiro do fruir

segunda-feira, março 9

Cinco e trinta - fragmentos

Esse abraço de tristeza que me toma às cinco trinta tem um quê de perguntas, um vazio que não respondo. Esse ar do fim do dia, esse sol que se finda, essa carícia no mar e eu vejo esse quase lampejo de amor.

Do que se diz

Mulher-navio, eu venho nadando vagarosamente para conhecer seu porto de pedras. Cá estou a escalá-lo e na passagem esculpi-lo, moldá-lo e dar-lhe forma.
Se atraco ou se me vou, desconheço. Não me é dado ver o futuro como a ti, que vê adiante.
Flutuo como o tempo que vê a maré crescer e desacelerar lento, calmo e azul.
Hoje acordei domingo: pingo de chuva e maçã.
Hoje acordei cinco e trinta: coração na mão.
Hoje começo de novo: curso norte, cinco e trinta, laranja e lilás.

sábado, fevereiro 7

cinco e trinta - fragmentos

pintei meu ventre com as cores que o sol deixa às cinco e trinta

pintei por sobre nós o laranja-lilás que se fixa quando chega o fim do dia. é tempo de pensar nas horas corridas, nesse suor na testa, na noite que se avizinha: beijo, coléra e o porvir.

quando deitamos na cama às cinco e trinta? Perceber da janela a primeira estrela, o sopro da noite, soluço e gargalhada?

nos dias nublados os relógios marcam cinco e trinta pelo dia afora. escurece e não se tem notícia, não se sabe laranja e nem sobra lilás no céu da minha varanda e eu vejo esse quase lampejo de amor.

segunda-feira, janeiro 12

mensagem

"A mulher pode dizer um não a cem homens, mas nunca cem nãos a um homem"

acabei de receber esse recado.
tô pensando ainda, viu?

terça-feira, janeiro 6

sala de jantar

pintei por sobre o ultimo desenho de ti
a sala de jantar que quero construir na casa nova

tem janelas amplas e lavabo
uma grande mesa para os pratos
pra lembrar como você é pequeno

escrevi essa frase hoje no guardanapo do bar da esquina
achei genial

a sala de jantar nova também tem cor
verde musgo gelatina marinha
pra lembrar da palidez do teu sorriso à porta da saída

os tapetes são felpudos e macios
as cadeiras confortáveis e aconchegantes
pra tornar a lembrança do seu abraço um cacto flamejante

as luzes são muitas e fortes
quadros e fotos
jardim de inverno
buffet decorado
muitos pertences a guardarem silenciosos
o ontem e o amanhã que desconheço

minhas mãos

trago nas mãos um defeito
que nem todos vêem:
elas se vão facéis
quando se dão.

ás vezes fico sem elas por um tempo
até que me entregam de volta
quando não as querem mais.
quando delas se fartam e procuram por mãos mais aguçadas e outras.

mas mãos se dão assim mesmo, me disseram.
é melhor assim do que guardá-las nos bolsos.
e se me tiram as mãos nem me dou conta, por vezes.
o que me doi, o que me doi mesmo
é quando as tenho de volta
por devolução.

sexta-feira, novembro 28

Na próxima, desce.

Ela sempre passa a mão na cabeça quando tá com vontade de dar. Sabe, assim, como que a bagunçar os cabelos. Como se perdesse o controle.
Acontece que ela estava sentada no ônibus, voltando do trabalho, 7 da noite, engarrafamento, lotação, e aquele troço daquela máquina e aquelas pessoas que não saiam do canto. Nada andava. Nem a sua vida sexual. E ela doida pra dar. Que me desculpem as puritanas, mas ela estava mesmo doida pra dar. Os peitos em suores e por dentro da saia jeans também.
Tomou uma resolução como quem compra o absorvente mais barato, porque precisa dele agora. Levantou-se, visualizou o mais rijo dos morenos, como uma onça à presa, encostou-se, de costas, nele, levantou a saia, abriu-lhe o zíper, olho-o de soslaio, com a cabeça levemente inclinada pra trás e fez um gesto com a boca de, seja discreto e aproveite. Tirou da calça do rapaz um embrulho já pronto pro natal e o colocou entre suas coxas. Com a ajuda do freio e dos solavancos do ônibus, os dois seguiram viagem sem muito esforço e sem se importarem com buzinas, embrulhos, luzes e tudo mais o que a cidade oferece de bom grado aos solitários. Alguns quarteirões depois ela baixou delicadamente a saia, soltou um sorrizinho para o rapaz, puxou o sinal e desceu da condução. Caminhou, bamba, até o fim da rua e sumiu.

terça-feira, outubro 7

É assim que números mudam uma cidade

então, o jornal O Povo, me convidou e a mais 5 escritores para escrever um conto com o tema "um dia de eleição". o tema é árduo, visto que escrever por encomenda já é um troço ruim e ainda com um tema em que se pode tudo inclusive cair no clichê. andei visitando alguns lugares onde os militantes se concentram e bebem e agitam bandeiras e entregam panfletos, antes de eu escrever: nenhuma idéia me veio, nada de novo talvez porque não haja nada de novo nesses lugares, nem mesmo as pessoas. enfim, fiz uma tempestade de idéias com vários amigos(as) e um deles me sugeriu, dentre tantos outros temas, o voto no interior. achei um mote interessante já que não tenho ligação nenhuma com o interior do estado e daí seria possível criar mesmo, sem referências prontas. bom, deu nisso aí embaixo e publicado no jornal O Povo, caderno vida & arte, dia 05 de out, justamente no dia de eleição. vale acrescentar que os outros contos são também muito bons e ainda as ilustrações do caderno que são do Carlus. do caralho. segue abaixo o link:


http://www.opovo.com.br/opovo/vidaearte/824400.html

http://www.opovo.com.br/opovo/vidaearte/824394.html


Vida & Arte


É assim que números mudam uma cidade

Ayla Andrade
Especial para O POVO


Acordou na mesma hora de sempre como se fosse acordar o dia. Como se fosse plantar o verde que sempre teima em nascer estorricado, como se fosse avisar ao galo matinal que é esta a hora da aurora.

Preparada estava a roupa para aquela manhã. Sua mãe deixara tudo ajeitado, peça sobre peça, combinando. Em dias importantes é hábito vestir-se com rigor para a ocasião. Seu primeiro voto. Aprendera nas poucas horas de escola a importância de votar, mas sempre se perguntou por quê. A professora não desconfiava e assim acabava a aula e o dia prosseguia como que normal. O café já cheirava quente no fogão e ele balbuciou qualquer coisa de preguiça de domingo.

O pau de arara de Zé Fininho já esperava lá em cima, na pista, com mais tantas pessoas dentro. Ele não sabia que dia de eleição era assim. Era a primeira vez que votava, mas lhe pareceu ser mais um dia em que se vai à cidade.

Já fora algumas vezes à cidade para comprar material para casa, alimento dos bichos ou quando adoecia e a rezadeira não dava conta. No caminho, a paisagem, que era a mesma de sempre, só parecia ter alguma diferença pelos letreiros de candidatos que não traziam outro anúncio que não números e ele se perguntava como números mudariam alguma coisa naquela paisagem de sempre.

- Não beber mais água de pote - ele pensou com sede - ele detesta água de pote. Talvez porque a água venha barrenta do açude que afogou a cidade vizinha para trazer progresso. Ali no pau de arara, olhando os rostos contentes e enrugados dos demais moradores ele sentiu uma leve apatia que era a alma e o vento daquele lugar.

Na cidade seus ouvidos estranharam tanto barulho e tantas pessoas andando, lado a outro, numa agitação de dia de feira que era sábado. - Hoje é domingo - ele pensou encantado com a possibilidade de a cidade ser grande e de serem muitos os seus moradores. Da cidade ser assim tanta coisa.

Saiu rumo a nada, a escarafunchar aquela nova cidade, com as pessoas na porta respirando todas o mesmo ar de dever cívico. Mas não era isso que o maravilhava e sim o andar de gentes pelas ruas a perguntar-se, a inquirir-se; e mesmo os considerados loucos que vagueiam por aí e povoam o imaginário das crianças até a morte se alumbravam com o domingo de acontecimento. E ele achando que era tudo tão cinza e sério no dia de eleição.

A cidade caminhava apressada junto com as horas. Antes que se apercebesse e devorasse o último caroço de água da garrafa, à sombra da árvore da praça, lembrou-se das encomendas de casa, porque se se vai a cidade é momento de fazer compras. Sua mãe não lhe recomendou o melhor candidato, mas sim a melhor farinha, aquela caroçuda:

- Porque senão o pirão num fica bom e seu pai não come - ela disse ao pé da porta.

Engoliu algo como almoço, mas sentia mesmo era fome daquela cidade.
As pessoas disfarçadas de candidatos, decorando números, escrevendo números, cheias de adesivos de números e bandeiras com números, um balbucio de música no ar, crianças correndo e brincando com restos de papéis e números, que de certo eram da noite festiva passada.

A tarde foi esquentando enquanto ele caminhava suando a observar atento a cidade grande e pequena, as pessoas dali e de lá. Visitou mais um tanto de lugares que costumava agradar-lhe, como a casa demolida e o alto do morrinho e pôde ver de lá que na cidade rodavam carros tanto quanto pessoas, bicicletas tanto quanto crianças. Seus olhos pareciam nem acreditar que uma cidade podia ser assim tão vasta de probabilidades num dia de eleição.

Então ele pensou:
- É assim que números mudam uma cidade.

Ayla Andrade é assistente social, fotógrafa artesanal e escritora. Nenhum livro publicado, mas muitas palavras ao vento. Publica no blog www.umaescadaparaonada.blogspot.com e no site www.corsario.art.br.

domingo, setembro 21

maio

fez um sol lindo nessa manhã de maio.
limpei as janelas.
(porque ele disse que voltava em maio).
limpei os tapetes com imenso furor, raspei dos móveis os pingos de vela.
(porque ele disse que voltava em maio).
tirei do armário a louça velha, deixa-a polida como o pálido dos meus cabelos.
lavei a sala e escorri a àgua com a mágoa das minhas lágrimas, varri da escada os últimos resquiços de pó.
(porque ele disse que voltava em maio).
maionuncademoroutanto, desde que ele se foi.

segunda-feira, agosto 11

atropelei três sonhos hoje.
acordei de chinelas e desprendi-me de mim.
enquanto caminhava pela cidade ainda avermelhada e olhava o céu como meu,
lembrei de guardar meu melhor olhar.
hoje cruzei com túneis, prédios grandes, árvores à beira-mar. mas o que eu mais gosto são as pessoas que correm. o tempo passa mais rápido quando elas saltam aos olhos correndo. elas se balançam inteiras e eu penso: - isso é que é pessoa.
o dia continuou infinito por que meu relógio tem ponteiros uns sobre os outros, eles se amontoam e decidem o tempo pra mim. hoje o tempo está para se perder nos cabelos de lã da prima predileta. às três da tarde. às cinco é tempo de considerar aquele convite de sentar-se a calçada, terça a tarde para contar nuvens de carneiro.

é tudo lã por que abraçar tem sido frequente. é macio e quente e preenche.

sem título

Desfaço as malas com a certeza de ter para sempre o corpo desnudo.

segunda-feira, agosto 4

Eu li shakespeare demais

eu li shakespeare demais. deve ser isso.
porque agora eu escuto por trás das portas ele e ela a cochicharem segredos e alguns risos. na sala, à frente de todos, pequenas sutilezas se encerram em seus movimentos: um toque leve nos ombros, mãos que se esbarram nas taças, sorrisos que saltam aos olhos. e eu penso: - eu li shakespeare demais.
alguns personagens me vem falar e me abro em ouvidos. depois duvido de minha própria sanidade e das vozes em sotaque britânico questionável.
tento remontar, depois que ambos partem, a rotina de imagens que alimentam meu parco repertório de desconfiança. pura bobagem, eu chego a conclusão. tal dúvida nem deveria pairar sobre minha cabeça. os conheço há tanto e tantas e diversas são as nossas relações que eles não ousariam passar por sobre mim, assim, com os corpos em desfruto.
mas logo lembro do dia em que, sob a árvore em flor, e nada mais desconfiável que estar sob a àrvore em flor, os dois em chá aromático desconcertavam-se em gargalhadas e planos vindouros. ou ainda quando na minha ausência se devoravam em guloseimas fartosas; na minha presença, sopas e caldos comedidos a goles de água e um charuto que apaga sempre no meio da conversa como que pedindo companhia pra ir embora.
o fato é que agora procuro em shakespeare o cúmplice para os meus devaneios quando acordo em febres a ver a valsa que os dois constroem em meus sonhos.

sexta-feira, julho 25

A rua tem cheiro de cio

e já se foi tanto e todos
que a sala ficou vazia de sentido
sobrou um tanto assim de livros
vírgulas dependuradas das páginas
pontos rolando escada abaixo
e eu pensando que é madrugada
e que a rua tem cheiro de cio

tem cheiro de cio por que os cães latem a noite toda.
as cadelas dormem satisfeitas.

logo logo é novo dia
e o sol se põe entre todos
logo logo o calor toma de conta
e invade minha vida e a sua

até que seja noite outra vez
até que se faça de mim linhas inteiras
a mordiscar sua orelha
e dizer ferozmente
que a rua tem cheiro de cio

terça-feira, julho 8

Siris

Preste atenção nos siris que caminham à beira-mar, hoje que é sábado.
o azul que é do mar reflete no céu, é por isso que ele assim, me disseram.
- assim, grande? me perguntou ele, enquanto segurava nas mãos um siri fujão.
- não. assim dessa cor. respondi eu, meio aborrecida pelo sol do dia.
era manhã cedo. muito sal e purpurina da noite passada.
- não fez bem, ele disse. você tá de cara ruim.
- tô não. é o sol. eu circulando os pés na areia marrom, molhada e fina.
a maré quase enchendo, naquele vai vem que é tão gostoso, entre frio e quente, entre espuma e água.
os cabelos molhados escorriam brumas e areia. pequenos grãos pendidos nos fios. você nem percebia como era bonito.
hoje com os anos que passaram, como as ondas por sobre os nossos pés, você nem é mais criança e já sabe porque o céu azul e que curupira não existe e muito menos mora na pia da cozinha.
- eles moram lá nas florestas e ficam por lá mesmo. você me disse da última vez. eu ri, vendo que você crescera durante as suas viagens, embora pra mim seja sempre aquele menino vestido de batman no shopping.

colorido e de dia

Me parece que seus braços
são o abismo pelo qual me enamorei

chego à borda
e de lá me quedo

tenho seu colo no amparo
na sua voz o doce afago
e pra matar a sede o fogo do gargalo

e se quando amanhece a te nada falo
é por que o sol de mim muito sabe
sabe colorido e de dia
sabe através dos vidros
e do calor que é amarelo

e eu que pensei que o mar batia na rocha sem motivo.

sexta-feira, junho 27

Sertão

A seca decretou:
- não se nasce mais.
Passaram-se meses e gota não veio.
Até onde ia o horizonte tudo era paisagem gasta.

8

8 da manhã. Parada.
Siqueira/papicu/13 de maio.
Vago. Vaga lembrança de você.
Praia. Areia branca, o sol de rachar, barulho de gente e mar, mas primeiro o terminal. Filas, pessoas e fumaças. Fila. Caça e pesca. Desço do ônibus, tiro as sandálias. Cena clássica. Caminhada na areia. Ondas do mar que lambem os pés. Sede. Coco. Banho de mar. Água quente, útero, lágrima.
Volto pro sol. Aqueço a pele que nem é minha.
Pedindo graças, pegando um bronze.

FAZ DE CONTA

- ó, faz de conta que a gente não se conhece.
- tá!
- aí eu passo por você, te cumprimento com a cabeça. Assim como se não te conhecesse.
- assim com um sorriso amarelo e sem saber onde botar as mãos?
- é, assim mesmo. Puxa, você faz igualzinho.
- você acha? Mas eu tô só fazendo de conta...
- ainda bem que eu sei, senão ia pensar que era de verdade. Aí eu paro mais lá na frente, me viro, converso alguma coisa com umas pessoas à toa e fico olhando pra você. Fazendo de conta que não te conheço.
- tá.
- aí você se vira na minha direção fingindo uma conversa interessante com umas pessoas à toa e fica olhando pra mim, fazendo de conta que não me conhece.
- tá.
- aí a gente fica, assim, umas 2 horas fazendo de conta que não se conhece.
- mas para que é isso mesmo?
- ora, pra fazer de conta que a gente esqueceu um do outro.
- ah!

terça-feira, maio 27

bilhete

eu esperei um bocadinho e ele me veio assim, como um bilhete.
tudo que é inesperado combina comigo.
ele me veio em letras e goles.
me veio pelas mãos do garçon que sorrindo também se deliciava com a cena.
me dá um gole - ele disse - mão no balcão do bar de sempre.
ali mesmo trocamos vários goles.
na segunda, ele me veio como de um pulo na escada do bairro de sempre. sorriso largo que me desabou e me fez pensar que não, que não é hora, que não, não quero.
trocamos vários goles. eu me enganei. eu quero.
na terceira, entre mãos, pés, cabelos, boca, olhos risos e "você me diz muito", a gente se deixou perder. se afundou na rede, jimihendrix, copos d'água, saliva, sobejo e domingo.

que bom receber bilhetes.

terça-feira, maio 6

quadrado

foi por sobre o seu ombro
que vi, naquele mesmo lugar,
o sol que se punha.


foi por sobre o seu ombro
que ouvi, naquele mesmo instante,
o adeus que vinha.

foi por sobre o seu ombro
que senti, naquele mesmo beijo,
o amor que nunca se foi.

terça-feira, abril 29

Paladar

Eu encontrei com ele como quem tropeça no desconhecido.
Fui caindo aos poucos no desfiladeiro que ele é.
As palavras soltas rolavam por sob meus pés quando ele falava. Eu, aos poucos, vi que debaixo do chapéu, dos óculos escuros e da roupa preta o desconhecido era talhadamente obsceno.
E obsceno era uma palavra que eu nunca pensara em escrever.
e como sentisse que tinha pernas novamente, metida naquele vestido vermelho, ousei arriscar-me no desfiladeiro obsceno e logo o desconhecido abriu-se em riso largo, colo afável, língua sem fel e mãos generosas para que não se caia desfiladeiro abaixo. Pendurado se fica a querer mais. E disso entende o obsceno.
Ele me beija os pés erguidos enquanto empurra o chapéu para trás.
Dizem que naquele lugar jamais viu-se cena tão bela, depois daquele dia.


Agora obsceno é palavra singela por que antes do que é dito sem pudor o precipício se abre em braços fartos e acolhe, como papel à dobradura, esse corpo que se entrega.

the passion fruit

The passion fruit it´s almost in my mouth
again
i can feel its taste
it cames to my mouth
again
it falls like rain
but it doens´t mean the same
it grows different
and push me to the end of it
i, that used to go only half way,
have walked all of it this time
just to find out
that the passion fruit it´s beside me
almost in my mouth
again

sábado, março 29

À beira do cais

À beira do cais esperando um navio que irrompe o mar com ferocidade.

À beira do caos esperando o pulo que irrompe o silêncio com destreza.

Assim à beira de mim como se de mim pulasse. Algo me prende pelo umbigo que me trouxe ao mundo. Algo me avisa que esse é o tesouro de tudo. Viver sem ser notado, à beira de si mesmo.


Só me saem palavras bonitas agora que não as quero. Quero dizer fúria e meu coração pensa mansidão. Quero dor e ele me diz ternura, quero uma arma, uma pistola e ele floresce belo em mim. Digo angústia, medo e desejo e ele me avisa tempo.

carcaça

Você merece o oscar
De melhor ator coadjuvante
A criatura comeu o criador
E cuspiu fora sua carcaça

Ele é de peixes

Ele é de peixes

E o mar agora navega entre nós.

Éramos dois

Num mar de horizonte magro

a bater braços e pernas como quem se afoga

até que o dia clareou e zarpamos em direções opostas

vendo o sol nascer alto

desenhando as nuvens

contando as estrelas

desfiando gotas de chuvas passadas



He sells fish

Como quem vende a própria a dor



He sells fish

como quem se cobre de flores



He sells fish

como quem descobre um atalho



He sells fish

Como quem se esconde



He sells fish

Como quem pesca no escuro



He’s selfish

Como se nadasse sozinho

quarta-feira, novembro 7

Passado a ferro

"o passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente".

Mário Quintana



Ela tomou o suco do esquecimento e nunca funcionou. Já tentou esquecer que teve mãe e que teve pai, que teve teto e teve mais. Agora tem que esquecer que teve amor.
Ela vai tentando aqui e acolá, um pouquinho a cada dia até que ele, o amor, a lembre de novo.

E ele agora vem em palavras. Mil delas que se multiplicam por hora e por dia e para todos. Ela se guarda de multiplicar palavras assim. Ainda mais por que ele disse nunca entender as palavras dela e sempre achar que ela escrevia pra ele.

Ele tem feito o mesmo.

Indecifrável. Ele tem usado muito essa palavra. Ela também.

Algumas madrugadas juntos e ela não entendeu nada. Pra que tanto choro? pra que tanta dor? pra quê tanto desalento e solidão se o que ele queria ele tem? o coração vazio. Ele disse, enquanto recolhia calça, sapatos, uma caneta roubada que queria o coração vazio. Pra que? ela não teve resposta. nunca.

Mas voltaram para a velha casa juntos e abraçados e rindo e chorando e ela continuou sem entender, mas se rendeu. sempre.

mas agora é passado, ele disse. passado a ferro, ela diz.

quarta-feira, outubro 31

Das Linhas

eu quero ser outra

eu quero ser tantas

e por isso escrevo.

e a cada linha me faço nova

me faço dada.

essas linhas não são pra mim

essas linhas não são pra você

são pra que eu me faça outra

são pra que eu me faça tantas.

e cada uma de nós

se chama dor, desejo e incerteza.

e eu adoro quando as linhas me levam ao inesperado

é mais uma de mim que surge

e vou montando meu pequeno exército de mim mesma

a desbravar o mundo

e nele construir palavras

para que sejamos outras, para que sejamos tantas.

terça-feira, outubro 23

Pedaços de amores mal vividos

Pedaços de amores mal vividos
cintilam no chão do quarto
A chama acessa e, no bolso, você carrega um poemeto amassado
Mal vivido
Você sempre carrega no bolso pequenos poemas
Como você

Mas eles são de uma pequeneza! Vocês dois.
Ela pensou.

Ele deitou com um sorriso irônico na cama
Como se pertencesse à ela.
Não mais.
Não respondi. Não vale a pena.
A sua alma é pequena. Como o são os seus poemas.

Ainda tem aquele trem.
Se incomode não, pode ir.
Eu cuido das suas bagagens.
Pra onde você vai não se precisa de bagagens.
Não se veste sorrisos, não se verte lágrimas.
Não se sente dor, não se sente o peito.
Pode-se falar só e ser ouvido.
Calma, calma. Eu sei que você não gosta de solidão.
Mas amores mal vividos fazem crescer os ouvidos e
não há nada que se possa fazer.
Mais pedaços de amores mal vividos
e aos pedaços nos fazemos inteiros.

quarta-feira, outubro 3

Resposta Afetiva

Netto,

Hoje mesmo passei pela casa dele, aliás como todos os dias, por que moro há um quarteirão de lá.

Ainda me lembro de meu avô, também a passear comigo depois da janta, me dizer:
- aquele é um grande escritor que vai ali.

Eu, muita pequena, lembro de um senhor magro, cabelos brancos e passos leves. mas na minha imaginação de criança ele em nada parecia um escritor!

o tempo passou e li Moreira Campos tantas vezes depois. E é sempre surpresa saber que aquele senhor que ali andava despreocupadamente, talvez maquinando seus personagens, era o próprio Moreira. E que felicidade me saber andando depois da janta sobre a mesma calçada e sob a mesma lua que ele.

Ano passado (acho que foi ano passado) vi a casa dele aos poucos ser demolida pra virar um singelo estacionamento. Cada dia que passava sumia um pedaço: o muro, as paredes, as colunas, o teto, até abrir-se um buraco no chão.

Não tive dúvidas. Voltei em casa peguei 2 poesias que tinha escrito sobre a minha própria casa e seus fantasmas e enterrei-as lá sob aqueles escombros. Pensei estar colocando ali, depois da casa derrubada, alguma poesia.

Levantei duas ou três pedras, cavei um pequeno buraco e depositei as poesias ali no chão de Moreira. Ainda hoje quando passo por lá, fecho os olhos e penso na casa resistindo, assim como as palavras de Moreira em seus livros e nos meus ouvidos.



mais em: http://mmedrunkenbutterfly.multiply.com

terça-feira, outubro 2

Cada um tem o hyper ballad que merece!

Outro dia encontrei seu copo. Escondido entre os guardados.
Copo de vidro, roubado e sem nenhum valor. Exceto pelo fato de que era seu. Não hesitei e de pronto tomei o copo em minhas mãos. As duas. Levei ao colo como se o ninasse. De certo me lembrei de você.
Também sem hesitar resolvi jogar fora o copo. Arremessá-lo da janela. Mas antes, antes, resolvi fazer uns pequenos pensamentos.
Quando o copo encontrar o chão e eu puder ouvir o seu fragor, então me convencerei de fato que você não volta mais, que devo esquecê-lo e que seguir em frente é mesmo a única opção.
quase me senti uma personagem de Parker.
De pé na cama e com ambas as mãos segurando firmemente o copo, projetei-me para frente a fim de colocar toda a força possível no arremesso e poder ouvir, sem perder um estilhaço, o fim do copo e o nosso.
Joguei. Não houve resposta. O copo simplesmente não quebrou.
Não sei por que nessa noite eu dormi sorrindo.

terça-feira, setembro 11

achados

tesouro como esse nunca vi!
tava enterrado? há anos?
puxa, e você não tinha idéia?

quarta-feira, setembro 5

my day will come

My day will come. My day will come.
I wish it could be read all over the world. Every wall. Every season. Trough the fields and in the bottles. I can hear the voices.
The wind it comes from your mouth.
A light in your tongue shows the path.
I’m behind you, following you by the way lighten, shined.
My day is coming.

Luís

Tremor no meu corpo, Tremor no meu corpo.
Com as minhas próprias mãos
Dando a mim mesma encanto
Ouvindo a minha voz, forte.
Respirando, respirando...
Minhas mãos...
Minhas mãos estão no meu corpo
Tocando-o,

Sentindo-o por dentro
Profundamente, úmido.
Sou eu em minha carne e não o corpo de um estranho
Ninguém mais respirando
Respirando comigo na solidão do escuro
Mas eu estou comigo mesma
Em mim mesma.



LUIS

Shake my body, shaking it with my very own hands, giving myself pleasure, hearing my voice out loud. Breathing, breathing
My hands… my hands are in my body,
Touching it, feeling it inside, deeply, wet…
It’s me in my flesh and no stranger’s body.
Nobody else breathing, breathing with me in the darkness’ solitude.
But I’m with myself in my own self.